domingo, 15 de abril de 2012

Verbum Die (XI)

"A vida já é curta, mas nós tornamo-la ainda mais curta, desperdiçando tempo."

Victor Hugo

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sentada


Numa planície verdejante atravessada por um pequeno rio límpido, descansa uma mulher sentada num imenso colchão de erva, olhando para a água a correr e a vida a passar. Leva a mão à cabeça e estende os seus cabelos para trás ao mesmo tempo que deita o olhar sobre o céu. Nele, vê as nuvens a passarem com a vida. Volta a pousar o olhar no rio, olha para a água cristalina e absorve-a o mais que pode. Tenta absorver toda a sua pureza, quer fazer parte da genuinidade daquilo que os seus olhos azuis vêem. Quer se sentir no outro lado de lá da natureza.
Levantando-se calmamente, ao ritmo de uma vagarosa brisa de ar fresco, aproxima-se do rio e ajoelha-se para o tocar e sentir. Pousando delicadamente as mãos na face para se refrescar, fica a olhar o seu reflexo que vai ficando cada vez mais nítido. Observa-se através do espelho da natureza, admira a sua beleza e juventude, admira os seus olhos, a sua boca, o seu nariz, os seus cabelos dourados, admira todos os seus traços faciais.
Um momento de vaidade que lhe trouxe ao pensamento a história de Narciso. Embora soubesse nadar, sabia muito bem a moral daquela história ancestral, levantando por isso a cabeça e lançando o olhar sobre a verde planície coberta de árvores que se erguiam dispersamente. Percebeu que fazia parte de um mundo, que era parte integrante de tudo aquilo que a rodeava. Era como uma daquelas árvores…
Senta-se com os pés a repousarem no rio, observa o seu movimento contínuo e ouve os seus sussurros. Pensa se aquilo que sente naquele momento será o mesmo que sentirá quando a juventude a tiver abandonado, levando consigo a vaidade. Dá por si, mais uma vez, a antecipar o futuro através de construções do passado. Então, percebe que é isso que a impossibilita de ser uma árvore. Afinal, estamos do lado de cá porque contamos o tempo. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Paga o justo pelo pecador

Um aposentado grego de 77 anos suicidou-se na Praça Syntagma , a Praça da Constituição, em frente ao parlamento, perante o desespero causado pela calamidade em que a Grécia vive. Para todos os cidadãos do mundo, deixou uma pequena carta que aqui transcrevo: 

"O Governo de Tsolakoglou aniquilou qualquer possibilidade de sobrevivência para mim, que tinha como base uma pensão muito digna que paguei, por minha conta, sem qualquer ajuda do Estado, durante 35 anos. E dado que a minha idade avançada não me permite reagir de forma diferente (mas se um compatriota grego pegasse numa Kalashnikov, eu apoiá-lo-ia) não vejo outra solução a não ser acabar com a minha vida deste modo digno, para não ter que terminar rebuscando nos contentores do lixo, para poder sobreviver. Creio que os jovens sem futuro vão um dia ter que pegar em armas e pendurar de cabeça para baixo os traidores deste país na Praça Syntagma , como os italianos fizeram com Mussolini em 1945. "
           
 Dá muito que pensar, não dá?
             Entretanto, o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, veio dizer que as críticas que a imprensa grega tem dirigido à Alemanha são "normais" nos países que viveram acima das suas possibilidades e que, depois, pretendem culpar os outros.
Resta concluir que há algo de profundamente errado entre o discurso deste senhor e o desespero que reina na Grécia. Que terá feito aquele senhor, e os gregos em geral, para merecerem tal destino? Nada! Simplesmente, a economia ultra liberalizada faz com que "o justo pague pelo pecador". A pergunta que fica no ar é - Até quando? 

sábado, 7 de abril de 2012

Verbum Die (X)

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fernando José Salgueiro Maia



Fez ontem, dia 4 de Abril, vinte anos que o Capitão Salgueiro Maia morreu, aos 47 anos de idade. 
Foi um Homem fundamental para o sucesso da revolução de Abril. Por sua livre consciência, manteve-se afastado dos órgãos de poder, apesar de várias vezes ter sido solicitado para ocupar cargos importantes. 
Aqui ficam as memoráveis palavras de Salgueiro Maia dirigidas "às suas tropas", durante a madrugada do dia 25 de Abril de 74, na Escola Prática de Cavalaria em Santarém: "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"
  

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O negócio do Cruddas


Peter Cruddas, tesoureiro do Partido Conservador britânico, foi obrigado a demitir-se depois da divulgação de um vídeo em que “vendia” o acesso a David Cameron. Disfarçados de potenciais “compradores”, uns jornalistas filmaram secretamente a conversa que tiveram com este senhor, onde ficaram a saber que um simples jantar com o primeiro ministro custava 250 mil libras, ou seja, perto de 300 mil euros.
Um autêntico escândalo para o partido conservador! Qualquer pessoa, no seu juízo perfeito, sentirá uma profunda indignação perante tanta corrupção e hipocrisia nas estruturas de poder. E, provavelmente, este caso é sintomático relativamente ao que se passa na grande maioria das democracias. Obviamente, o problema não está na democracia, que é, ou deve ser, uma conquista definitiva do Ocidente. O problema está na sobreposição do sector financeiro sobre a política, está no incumprimento dos governantes da defesa do interesse público e está na corrupção que, quando em grande escala, normalmente, precede à impunidade.
"O que aconteceu foi completamente inaceitável. Não é esta a forma como angariamos dinheiro no Partido Conservador. Não devia ter acontecido". Eis as palavras de David Cameron perante o escândalo. Em vez de dizer que nada disto devia ter acontecido, o primeiro-ministro britânico devia dizer que se sentia envergonhado e, se realmente não aprovasse estes esquemas, admitir a sua falta de capacidade de liderança, uma vez que não consegue evitar a promiscuidade entre a sua governança e determinados interesses particulares.
Não é só em Portugal que os políticos do arco governativo carecem de sentido de Estado, em muitos outros países se passa o mesmo, desde a Itália até ao Reino Unido. A culpa não é do “português”, ou do “grego”. A culpa é dos vendilhões do templo!

domingo, 1 de abril de 2012

Verbum Die (IX)

"O mais terrível dos sentimentos é o sentimento de ter a esperança perdida"
Federico García Lorca