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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Verbum Die (XVII)

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Verbum Die (XV)

Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Do pingo amargo à ressurreição


Amontoam-se as formigas esfomeadas,
salvo as bem-afortunadas,
sobre pedaços fragmentados em pacotes dourados,
aliviando as necessidades sob contornos antiquados.

Mas, como o antiquado não significa que esteja ultrapassado,
a história repete-se porque ignoram o passado,
nasce mais uma ofensiva que as formigas terão que superar,
chegam novamente os tempos em que é preciso militar.  

Por enquanto, as formigas atropelam-se e regem-se pelo umbigo,
a rainha  enrosca-se contra a cabeceira livre de perigo
e o dia de uns é o oposto do dia dos restantes que é um castigo.

Por enquanto, basta à rainha lançar pedaços fragmentados em pacotes dourados,
para manter as formigas no redopio dos imediatos não pensados,
com os corpos curvados e na incerteza crucificados.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Voz inconfundível do fadista Alfredo Marceneiro, letra magistral do poeta Carlos Conde



Ser pequenino


Que bom que é ser pequenino,

Ter pai, ter mãe, ter avós,

Ter esp’rança no destino

E ter quem goste de nós.


A velhice trás revés,

Mas depois da meninice

Há quem adore a velhice

P’ra ser menino outra vez.

Ser menino, que altivez

De optimismo e desatino!

Ver tudo bom e divino,

Tudo esperança, tudo fé,

Enquanto a vida assim é

Que bom que é ser pequenino!...


Ver tudo com alegria,

Sem delongas, sem demora,

Ver a vida numa hora

Ter na mente a fantasia

Dum bem que ninguém supôs,

Ter crença, sonhar a sós,

Co’ a grandeza deste mundo

E, para bem mais profundo,

Ter pai, ter mãe, ter avós.


Ter muito enlevo a sonhar,

Acordar e ter carinho,

Ter este mundo inteirinho

No brilho do nosso olhar.

Viver alheio ao penar

Deste orbe torpe, ferino,

Julgar-se eterno menino,

Supor-se eterna criança,

E, num destino sem esp’rança,

Ter esp’rança no destino.


Ó desventura, ó saudade,

Causas da minha inconstância,

Daí - e pedaços de infância,

Retalhos de mocidade.

Dai-me a doce claridade

Roubando-me ao tempo atroz

Quero ter a minha voz

P’ra cantar o meu passado...

É tão bom cantar o fado

E ter quem goste de nós!...

domingo, 18 de março de 2012

Verbum Die (V)

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

terça-feira, 13 de março de 2012

Verbum Die (I)

Os Vendilhões do Templo


Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.

Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Reflexos

O vento sopra, levando consigo o tempo.
A chuva caí, caindo consigo os sonhos.
A terra treme, tremendo consigo a esperança.
O nevoeiro põe-se, pondo-se consigo a memória.
A lava ergue-se, erguendo-se consigo sete, hades e plutão,
deuses da selvática criação!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eu sou, nós somos

Sózinho, tu és sózinho,
És tu quem te faz andar.
Não esperes ser alguém, não esperes,
Agora és tu e sempre foste, serás.

Não desesperes, é a tua natureza,
Ela é mais complexa que uma só imagem.
Estamos sózinhos, essa é uma certeza,
Separados, de nós nem uma miragem.

Juntos, apesar de sózinhos
Podemos desabafar a solidão,
Deixamos de ser grão e grão
Passamos a ser grão a grão.

Então, continuariamos sózinhos
Mas sem solidão,
Por instantes seriamos verdadeiramente.
Pó, somos como o pó.