quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Berlim em protesto na Semana Verde Internacional

No contexto da Semana Verde Internacional, dezenas de milhares de pessoas mostraram a sua indignação com a política agrícola europeia, responsável, entre outras questões, pelo atraso do desenvolvimento dos países mais pobres. Como alternativa à agro-industrialização, os manifestantes propõem reformas que promovam as pequenas explorações agrícolas, privilegiando a qualidade dos alimentos e o respeito pelo meio-ambiente e pela biodiversidade. 

Pelo terceiro ano consecutivo, dezenas de milhares de pessoas saíram à rua em Berlim, no passado dia 19 de Janeiro, para celebrar o início da Semana Verde Internacional − um evento durante o qual se realiza a maior feira agrícola do mundo.

Assim, sob o lema «Já temos o suficiente! Boa comida. Boa agricultura. Agora!», cerca de 25 mil manifestantes marcharam, num movimento colorido e heterogéneo, rumo ao Gabinete da Chancelaria federal, onde se encontravam, numa conferência dedicada à Semana Verde, os Ministros da Agricultura de mais de oitenta países para discutir estratégias de segurança alimentar.

Setenta tractores agrícolas e veículos destinados à apicultura acompanharam esta manifestação, demonstrando que muitos agricultores, apicultores, entre outros trabalhadores rurais, partilham as preocupações relativas às consequências nefastas do agro-negócio. Para estas pessoas, deve-se dar total primazia aos interesses dos consumidores e dos agricultores, que se reflectem na conservação da natureza e na protecção ambiental.

Foram entoados cânticos durante o percurso desta manifestação, de entre os quais se destacava «se vocês perseguirem os agricultores, os animais e as abelhas, não se tornarão deputados», ao mesmo tempo que eram agitadas bandeiras e cartazes que expressavam o repúdio pela criação industrial, pelo uso de pesticidas, pela pressão crescente dos preços praticados pelos produtores industriais e pelo impacto negativo da industrialização nas pequenas explorações agrícolas nos países do sul da Europa.

O mau trato dos animais, como acontece nos aviários e nas produções de suínos, e a produção de milho industrial pelas grandes corporações para produzir biocombustível constituem umas das principais críticas à agro-industrialização. Para a substituir, uma ampla aliança formada por 35 organizações e associações, maioritariamente ligadas à assistência social, ambiental, animal e agrícola, de entre as quais se incluem a Bund, a ATTAC, a Nabu, a Oxfam e a Albert Schweitzer Foundation, das quais fazem parte muitos agricultores, propõe uma série de reformas governamentais de carácter ecológico.


As perspectivas de associações e organizações ambientais e agrícolas

«Nós já temos agro-indústrias suficientes!», disse o presidente da Associação de Produtores, Processadores e Comerciantes de Comida Orgânica (Bund Ökologische Lebensmittelwirtschaft), Felix Prinz zu Löwenstein, acrescentando que terão de se «juntar para exigir uma mudança de política relativamente à alimentação, renunciando à pecuária industrial que trata os animais como se fossem objectos». Felix Löwenstein não fica por aqui, afirmando que dever-se-á «renunciar à industrialização da agricultura que consome excessivamente os recursos disponíveis e prejudica o ambiente». Adverte, também, que «os alimentos industrializados, apesar de parecerem baratos, são, na verdade, muito caros, porque destroem o ambiente, a biodiversidade e o clima», defendendo, assim, «uma utilização sustentável dos recursos como a terra, a água e a biodiversidade, que constituem a base da oferta de alimentação», e exigindo «comida que mereça ser chamada de comida e cujo preço reflicta a verdade ecológica».

Felix Löwenstein referiu, ainda, o que para todos aqueles manifestantes deve ser o futuro da agricultura: «um sistema de agricultura baseado na ecologia e nos agricultores, e não na agro-indústria que opera segundo os interesses do mercado de exportações». Para si, a UE não deve distribuir fundos agrícolas indiscriminadamente mas antes direccionar o dinheiro dos contribuintes para beneficiar a agricultura que respeita a ecologia e o meio ambiente. Neste sentido, afirma que «a nossa ministra da agricultura [alemã], IIse Aigner, deve fazer o máximo em Bruxelas para alterar radicalmente a política de alimentação e assegurar que a reforma da política agrícola incorpora a estratégia verde defendida pelo comissário Ciolos» − ex-ministro da agricultura romeno e actual comissário europeu da agricultura, conhecido por ser um defensor da segurança alimentar e da preservação ambiental. Na verdade, Felix Löwenstein teme que as propostas de Ciolos percam importância e saiam da agenda europeia.

Interessa também atentar às declarações do presidente da Federação do Meio Ambiente e da Conservação da Natureza (BUND), Hubert Weiger, que, diante da chancelaria, referiu que «por trás da bela aparência das montras de carne, esconde-se o sofrimento dos animais que vivem num regime de constante engorda, prejudicando também o meio ambiente». Hubert Weigar conclui o seu discurso apelando ao governo federal para «garantir que as pequenas explorações agrícolas sejam encorajadas em detrimento das “fábricas de animais”».

Os produtores de leite, que participaram empenhadamente nesta manifestação, têm visto a sua situação agravar-se, apesar das greves e das várias demonstrações de descontentamento em Bruxelas. Segundo Johanna Böse-Hartje, que integra a Associação de Produtores de Leite Alemães (Bundesverband der Deutschen Milchviehhalter), «os políticos estão a adoptar medidas de liberalização, caminhando para a destruição de culturas agrícolas em todo o mundo». Para si, a aliança alcançada no dia 19 de Janeiro, demonstra que as suas exigências para um mercado regulado e para a revisão da política agrícola «têm tido um impacto positivo na sociedade». Acrescenta, ainda, que, «se os agricultores e os cidadãos lutarem pela reforma na política agrícola, poderemos manter as nossas explorações agrícolas e assegurar a produção de comida saudável».


O impacto da política agrícola europeia nos países mais pobres

As organizações da igreja Pão para o Mundo (Brot für die Welt) – uma voz colectiva cristã de mudança e desenvolvimento − têm chamado a atenção para as repercussões da política agrícola europeia no desenvolvimento das economias emergentes. Klaus Seitz, o líder político desta voz colectiva, afirmou que «as actuais políticas agrícolas europeias ameaçam os meios de subsistência de muitas famílias rurais em países pobre». Para si, «aumentar a produção agrícola e o volume de exportações não atenua a fome que existe». Na verdade, acrescenta, tem o efeito contrário, queixando-se que já existem «situações suficientes de pessoas a passar fome» e que «os frutos do trabalho agrícola não beneficiam toda a humanidade». Klaus Seitz, referindo o lado negativo das exportações alemãs, afirmou também que «mais de dezassete milhões de hectares estão a ser usados para responder à procura de soja, a qual é necessária para a produção de leite e de carne, em detrimento da produção local de alimentação e da preservação da natureza».

Não assumindo qualquer responsabilidade pelo impacto negativo das políticas agrícolas europeias nos países mais pobres, Ilse Aigner, ministra da agricultura da Alemanha, e Silva Gaziano, Director Geral do Programa Mundial de Alimentação (programa da FAO), declararam a sua intenção de começar a investir mais na agricultura dos países em desenvolvimento, explorando o seu potencial agrícola em consonância com a protecção ambiental e climática. Justificaram esta declaração de vontade com a necessidade de combater a fome e a pobreza no mundo, apoiando os pequenos agricultores.

Ilse Aigner, questionada sobre as críticas de que tem sido alvo, disse que «qualquer pessoa que pede uma nova política agrícola tem que olhar para o que a Alemanha já fez», acrescentando que a Alemanha está na «“ecologização” da agricultura mais longe do que a maioria dos países da Europa».


A actuação da banca e a fome

Por fim, falta referir uma das principais reivindicações da manifestação do passado dia 19 de Janeiro: pôr cobro à especulação financeira com as commodities agrícolas, para a qual muito contribuem alguns bancos alemães. Esta especulação é responsável pela intensa flutuação dos preços dos alimentos, que provoca a fome em muitos países subdesenvolvidos. A este respeito, o presidente da Acção Agrária Alemã (Deutsche Welthungerhilfe), Bärbel Dieckmann, afirmou que a «especulação contribui claramente para a volatilidade dos preços, aumentando as situações de fome, especialmente nos momentos críticos». Partilhando as mesmas preocupações, Thilo Bode, o chefe de uma organização de consumidores chamada Foodwatch, acusou alguns bancos de serem «cúmplices da fome em países subdesenvolvidos».

O Deutsche Bank, pela voz do Co-CEO Juergen Fitschen, contrariou todas estas acusações, argumentando que os estudos que mandou realizar não apresentaram provas convincentes de um relacionamento entre os investimentos nas commodities agrícolas e a fome no mundo. Juergen Fitschen diz ainda que os derivados agro-pecuários desempenham um papel importante no comércio global, o que justifica que o Deutsche Bank continue a oferecer instrumentos financeiros relacionados com os produtos agrícolas.

Ainda assim, a indignação entre a opinião pública começa a dar alguns resultados, como se pode observar pelo anúncio de algumas instituições financeiras, como o Commerzbank, de retirada de investimentos relacionados com produtos alimentares. Será este o princípio do fim das práticas especulativas com os produtos agrícolas? Grande parte da resposta residirá, certamente, na capacidade de mobilização e na persistência dos que se opõem a estas práticas.


Publicado no jornal afolha, em 10/02/2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Clubismo

Costuma-se dizer que, na nossa vida, o clube a que pertencemos é das únicas coisas que fica para sempre. De facto, excepto durante a infância e, talvez, adolescência, mudar de clube é um sacrilégio. Assim, uma pessoa que muda de clube não deve ser levada a sério.

Eu, que me visto de verde, face ao descalabro de uma equipa de futebol que apenas se poderá salvar se estiver atenta às aulas do Professor Jesualdo Ferreira, mantenho a minha alma cristalinamente leonina. Nem o fim da equipa de futebol atenuaria o verde carregado das minhas vestes. E a convicção, essa, é a mesma na vitória e na derrota. Nestas matérias não é a razão que impera – digam o que disserem, aconteça o que acontecer, o Sporting é inalcançável.

Todavia, respeito todos os outros clubes e os respectivos adeptos. Estou convencido que não existe nenhum motivo para um adepto fervorosamente portista ter mais orgulho no seu clube do que um adepto que mantenha intacta a sua alma salgueirista. Face à eterna paixão clubística, a dimensão e as conquistas são aspectos menores.

Se todos fossem do clube que vence mais, que mais títulos conquista, desaparecia a competição. É graças àqueles que se entregam de alma e coração a um clube pelo que este é e não pelo que tem, colocando de parte os aspectos materiais da soma de um conjunto de taças e troféus, que o futebol é tão magnificamente colorido.

Se todos vestíssemos a mesma cor, o futebol seria entediante. Por isso, homenageio aqui todos aqueles que se casaram por convicção e não por conveniência.

Publicado no ptjornal, em 20/01/2013
 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cinema: um antídoto

Apesar de o aumento do IVA ter tornado uma ida ao cinema num programa caro, como acontece com muitas outras coisas, ainda sou daqueles que o pode fazer. Sou um leigo no que respeita à sétima arte, no entanto, quando vejo um bom filme, sinto que tirei um enorme proveito do tempo despendido em frente ao ecrã.

Das três últimas vezes que saí do cinema, saí completamente absorvido.
No primeiro destes três filmes, saí absorvido pelo poder avassalador das paixões e das desilusões amorosas, capazes de levar a natureza humana à sua própria extremidade e, por vezes, ultrapassá-la, fazendo com que os seus equilíbrios se desmoronem sobre o abismo da insanidade. Anna Karenina, realizado por Joe Wright e baseado na obra de Leo Tolstoy, é uma viagem ao íntimo de uma mulher que terá que escolher entre continuar uma vida monótona e, até, entediante, ou aventurar-se numa sociedade conservadora que não tolera qualquer desvio do status quo.

No segundo filme, saí absorvido pela brutalidade e pela magnanimidade que caracterizam o ser humano. Ao mesmo tempo que é capaz de actuar impiedosamente na prossecução dos seus objectivos e ser indiferente ao sofrimento alheio, é também capaz de mostrar todo o seu esplendor quando o amor o põe à prova ou quando se entrega de corpo inteiro aos valores em que acredita. Neste segundo ponto, os espectadores têm uma boa demonstração do particular altruísmo que caracteriza um revolucionário. Os Miseráveis, a obra-prima de Victor Hugo e agora transposto para cinema por Tom Hooper, é o musical que mais gostei de ver até hoje, apesar da arriscada decisão de pôr o Russell Crowe a cantar – porém, quando se é um dos melhores actores da actualidade, muito dificilmente se faz má figura, seja em que papel for.

Na terceira ida ao cinema, que foi no passado Sábado, saí absorvido pelo casamento entre a fantasia e o fascinante instinto de sobrevivência que partilhamos com todos os outros animais, como nos é demonstrado por um jovem rapaz indiano e por um tigre de bengala adulto. Uma verdadeira odisseia onde Pi – assim se chama o rapaz – enfrenta o desafio hercúleo de sobreviver no meio de um deserto de água salgada, tal como, outrora, havia acontecido com Ulisses. Através deste magnífico filme realizado por Ang Lee, baseado num livro de Yann Martel, compreendemos que a fantasia é um dos melhores antídotos contra as amarguras da vida.

Enfim, perante o relatório do FMI encomendado para Portugal, que, face à austeridade brutal que preconiza, representa uma enorme contradição com o que o próprio FMI disse há pouco tempo atrás, quando admitiu que os seus modelos (pró-austeridade) estavam errados, o melhor que há a fazer para manter o ânimo é consumir cultura, seja qual for a sua forma de expressão.

Publicado no ptjornal, em 13/01/2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ano novo, a mesma história


A época festiva que vivemos nestes últimos dias serviu para que, por momentos, nos abstraíssemos do inferno em que Portugal se tornou. Nesse momento de abstracção, o já pior governo da terceira República aproveitou para canalizar dinheiro dos contribuintes para mais um resgate à banca, desta vez para o Banif.
Desta forma, serão injectados mil e cem milhões de euros num banco que está avaliado em 570 milhões de euros. A acrescentar a mais esta facada nas costas dos portugueses, soubemos que o Estado, apesar de salvar mais um banco, não terá qualquer intervenção na sua gestão, servindo apenas para transferir o dinheiro de todos os portugueses para um banco em estado de pré-falência.
É difícil termos a percepção do que são mil e cem milhões de euros. Para isso, o melhor é fazer equivaler essa quantia a algumas das medidas governamentais. Ora, este valor é superior ao subsídio retirado aos funcionários públicos e é quase tanto como o valor que o Estado arrecadará com a sobretaxa de IRS. Assim, através de vários episódios a que vão assistindo, os portugueses vão percebendo que os gastos excessivos do Estado lhes são alheios, uma vez que são fruto de negociatas e da corrupção que graça num país com uma justiça plutocrática.
Foi dito que, através de fundos privados, haveria uma capitalização no Banif no valor de 450 milhões de euros. No entanto, para além de não existirem quaisquer garantias nesse sentido, os accionistas do Banif já deram a entender que dificilmente entrarão com mais dinheiro.
Não nos esqueçamos que, inicialmente, o BPN precisaria “apenas” de setecentos milhões de euros do Estado para, posteriormente, essa quantia alcançar os sete mil milhões. Certamente, o mesmo acontecerá com o Banif, cujas dificuldades eram perceptíveis há já algum tempo. Nos primeiros nove meses do ano de 2012, este pequeno banco teve imparidades no valor de duzentos milhões de euros, o que representa mais 43% que no mesmo período no ano homólogo.
Vítor Gaspar, um ministro que supostamente deveria representar o rigor e a transparência na gestão das contas públicas, prova, a cada dia que passa, que estamos a ser alvo de uma gestão danosa, onde os interesses dos contribuintes e dos grandes grupos económicos e financeiros são tratados de forma díspar. Sem considerações pessoais, o nosso ministro das finanças é um verdadeiro perigo à solta. A tríade Coelho, Gaspar e Relvas é um pesadelo cada vez maior e que ganha contornos surreais quando olhamos para a presidência da República e vemos Cavaco Silva.
O que é facto é que enquanto brindávamos ao novo ano, Gaspar injectava largos milhões de euros no banco que durante muito tempo serviu Alberto João Jardim e companhia. Um brinde ao rigor e… ao Excel! 

Publicado no ptjornal, em 06/01/2013 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Siliana faz da Primavera uma realidade longínqua

Destaque/Resumo: A Tunísia vive num impasse. O fim da ditadura de Ben Ali não trouxe o progresso que a população tunisina anseia e a instabilidade que o país atravessa apresenta-se como um factor de grande preocupação. Os confrontos que se verificaram na cidade de Siliana, pela sua dimensão, demonstram os enormes desafios que a Tunísia tem pela frente. No entanto, a firmeza da população desta cidade na defesa das suas reivindicações, poderá também servir de estímulo a todos os tunisinos. Por enquanto, serviu para que mais pessoas soubessem que, na Tunísia, já não é Primavera.

A fuga do ditador Zine El Abidine Ben Ali para a Arábia Saudita, em Janeiro de 2011, foi celebrada como o início do calendário da Primavera árabe. Mas, após este acontecimento, pouca atenção se deu aos desenvolvimentos ocorridos na Tunísia, que vive dias tremendamente difíceis.

O que aconteceu no passado dia 29 de Novembro, ilustra o ponto a que chegou um país que, ainda há bem pouco tempo, sonhava com uma era de progresso. Em Siliana, uma cidade tunisina situada a 170 km a sudoeste da capital Tunes, ocorreram grandes confrontos entre polícias e manifestantes, precedidos de três dias de grande instabilidade nas ruas desta cidade.

Estes confrontos iniciaram-se com o apedrejamento de uma esquadra da polícia de grande dimensão, tendo a polícia, como resposta, recorrido à utilização de veículos blindados, lançado gás lacrimogéneo e disparado balas de borracha.

À rápida reacção policial, responderam os manifestantes através do uso de “Cocktails Molotov” e da construção de barricadas. No entanto, os manifestantes acabaram por sofrer um endurecimento da violência policial, que feriu gravemente cerca de trezentos manifestantes, dos quais dezassete ficaram cegos pelos disparos da polícia. Esta quantidade de feridos fez com que muitos tivessem que ir para hospitais de cidades vizinhas. Um dos feridos da carga policial foi David Thomson, jornalista da RFI (Radio France Internationale) e do canal France 24, que se fazia acompanhar por um colega tunisino que também ficou ferido.

As reivindicações dos manifestantes de Siliana prendem-se, essencialmente, com o seguinte: pedido de renúncia do governador da cidade; combate à pobreza; combate ao alastramento do desemprego, motivado pela queda de 66% da criação de postos de trabalho na região desde o início do ano; e com a libertação dos manifestantes presos em manifestações anteriores, muitos deles detidos desde de Abril de 2011.

Perante a ausência de resposta aos anseios dos habitantes de Siliana, o clima conflituoso que já se vivia na cidade agravou-se, abrindo caminho para o desespero e, por consequência, para a violência.

O caos que se seguiu levou à intervenção do exército que, chegado à cidade, foi recebido com muita alegria pelos manifestantes e habitantes, que gritavam «sacrifico o meu sangue e a minha alma pelo exército». É importante não esquecer que a polícia é conotada com a repressão que se vivia na ditadura, ao passo que o exército é visto como uma força que protege o povo.

Uma vez que o governador da cidade se manteve no poder e o governo tunisino nada fez para responder aos anseios dos manifestantes, praticamente toda a população de Siliana abandonou a cidade para, como disse um dos habitantes, «deixar o governador governar uma cidade de fantasmas.» Para reforçar o impacto desta decisão, a população de Siliana iniciou uma marcha rumo à cidade de Tunes, no dia 30 de Novembro.

Face a esta situação, o governo tunisino apressou-se a chegar a um acordo com os sindicatos. Após este acordo, o governo pressionou o governador da cidade, Ezzine Majjoubi, para que este se demitisse, o que acabou por acontecer. Através de uma luta intensa da população, o governo foi obrigado a ceder a uma das principais reivindicações - o afastamento de Majjoubi.

Mas os resultados da luta da população estenderam-se também ao acordo alcançado entre os sindicatos e o exército, através do qual a polícia teve que se retirar da cidade, ficando o exército responsável pela sua segurança. Néjib Sebti, o secretário geral da UGTT, principal sindicato tunisino, apontou este acordo como «muito importante», tendo denunciado «a repressão sofrida pelos manifestantes pacíficos». O secretário geral da UGTT afirmou que «os habitantes de Siliana mais afectados pela pobreza nunca se irão ajoelhar», acrescentando, ainda, que estas pessoas estão «dispostas a morrer pelos seus direitos».

Por seu turno, o primeiro-ministro tunisino centrou a sua intervenção na condenação dos ataques dos manifestantes às forças da ordem.

A alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, Navi Pillay, emitiu um comunicado onde expressa a sua «inquietação perante os violentos distúrbios», condenando «o recurso excessivo e desproporcionado da força» pela polícia. Pillay acrescentou que «a liberdade de expressão e de reunião são direitos humanos fundamentais que devem ser protegidos e respeitados», tendo também felicitado o governo tunisino pelo anúncio da abertura de uma comissão de investigação dos confrontos em Siliana.

Em muitas cidades tunisinas saíram à rua milhares de pessoas em solidariedade com a população de Siliana, tendo-se registado ataques às sedes do Partido Ennahda. Este partido islamita moderado, que venceu as primeiras eleições livres na Tunísia, continua a ter muito poder no país, dominando um conjunto de ministérios, como o da justiça ou o das relações externas.

Na verdade, a luta contra a pobreza e o fim da repressão policial constituíram reivindicações cruciais da revolução tunisina, pelo que, ao assistirmos à continuidade dessas realidades, assistimos também ao crescimento dos anseios da população tunisina. Os confrontos de Siliana tiveram um impacto tão grande que o presidente tunisino, Moncef Mazouki, se reuniu de emergência com o primeiro ministro, Hamadi Jebali, e com o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Mustafá Ben Jafar.

Paralelamente ao bloqueio político que se vive neste país, onde a elaboração de uma Constituição continua por se concretizar, desenrolam-se inúmeras manifestações que, muitas vezes, degeneram em conflitos violentos, muitos dos quais motivados por grupos salafitas. Toda esta convulsão político-social evolui quando nos aproximamos do dia 17 de Dezembro, no qual se irá celebrar o segundo aniversário da revolução de Jasmim, marcada pela auto-imolação do vendedor ambulante Mohamed Bouazizi, na cidade de Sidi Bouzid.

De facto, a economia tunisina está muito debilitada, estando o governo desesperadamente à procura de investimento estrangeiro. A frágil recuperação do sector turístico, uma das principais apostas da ditadura de Ben Ali, prejudica muito o desempenho económico tunisino. O presidente Moncef Marzouki, através de um discurso dirigido para à nação, afirmou que «o país se encontra numa encruzilhada». Para além desta afirmação, Marzouki acusou o governo, liderado por Hamadi Jebali, de ter um «rendimento insuficiente» perante os desafios que o país enfrenta, demonstrando o seu receio que o país «pior» e que a situação «se torne caótica».

Jebali, um importante membro do partido Ennahda, disse que está fora de hipótese que o governo se demita e acusou os movimentos de esquerda de promover a desordem pública, inclusivamente o que aconteceu na cidade de Siliana.

Desta forma, o futuro da Tunísia apresenta-se incerto e imerso numa instabilidade que teima em continuar.


Publicado no jornal afolha, em 17-12-2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um encontro com Henry

Custa ver um excelente cozinheiro, como o António, preso a um telefone a vender produtos que ele próprio não consome nem aprecia. Em vez de estar numa cozinha, pondo ao serviço o melhor das suas aptidões, está ao telefone a ganhar a vida. Temos, portanto, um mau vendedor no lugar de um, presumível, bom chefe de cozinha.

Enquanto pensava nisto, fui abordado por uma rapariga no meio de uma avenida barulhenta e poluída, que me queria fazer um inquérito sobre os meus hábitos alimentares. A cara dela não me era estranha e acabámos por descobrir que tínhamos amigos em comum – era a Rita, conhecida pelo seu talento especial para o ballet, que pratica desde pequenina. No entanto, anda a fazer inquéritos para ganhar a vida. Temos, portanto, uma inquiridora no lugar de uma excelente dançarina.

Continuei a caminhar e, quando olhei para o relógio, decidi que estava na hora de ir ter com o Henry. Não podia chegar atrasado àquele encontro e não queria repetir para mim próprio, pela enésima quarta vez, que não podia chegar constantemente atrasado a todo o lado. Ainda para mais, aquela seria uma oportunidade única para estar com aquele ilustre senhor.

Apanhei um autocarro rumo à Praça da Memória. Quando cheguei, apressei-me a ir comprar tabaco a um quiosque ali perto. Lá estava o André a vender coisas para ganhar a vida. Tive a felicidade de um dia o ouvir tocar guitarra portuguesa – tocava como as sereias cantam. Temos, portanto, um vendedor cabisbaixo no lugar de um exímio guitarrista.

Quando cheguei à porta do local combinado, resolvi, antes de entrar, ligar à Francisca, para saber se a entrevista daquela manhã lhe tinha corrido bem. Felizmente, correu muito bem e, finalmente, a Francisca encontrou um emprego que lhe permite sustentar o seu pequeno Diogo. Vai trabalhar para uma grande consultora, o que lhe permitirá ter o rendimento suficiente para viver dignamente com o seu filho. Como todos nós, tinha que ganhar a vida. Nunca vi ninguém ensinar tão bem com a Francisca. Foi minha colega de curso e era a ela que todos recorriam quando tinham dúvidas. Além disso, gostava de investigar, mas teve o azar de nascer num país onde, para se fazer investigação, é preciso ser-se capaz de tocar com o nariz na nuca. Temos, portanto, uma consultora esforçada no lugar de uma professora e investigadora brilhante.

Finalmente, abri a porta e desci as escadas empoeiradas daquele sítio que conhecia bem, apesar de nunca lá ter ido. Quando cheguei à cave, um empregado vestido a rigor recebeu-me de uma forma muito familiar e encaminhou-me para uma pequena sala onde já estava Henry David Thoreau, um homem sábio do século XIX.

Entre copos e profundas baforadas, a conversa eternizou-se. De facto, quando estamos lado a lado com um ilustre, ouvir torna-se num prazer imensurável. A maneira como me falava da importância de proteger e preservar a natureza impressionou-me muitíssimo, pois, para um homem que viveu num tempo onde essa questão era desprezada – ainda hoje o é em grande parte do mundo –, é mais uma constatação de que há quem viva à frente do seu tempo.

Quando Henry me pediu que contasse coisas sobre o meu país, falei-lhe, após orgulhosamente dissertar sobre quase nove séculos de aventuras e desventuras, de um governo que tem um primeiro-ministro que, na verdade, é um fantoche, que tem um ministro de seriedade muito duvidosa, que é o verdadeiro primeiro-ministro, e que tem um ministro das finanças que é um agente ao serviço de interesses externos – como se demonstrará quando ocupar um belíssimo lugar numa qualquer instituição internacional.

Henry não ficou minimamente surpreendido. De forma particularmente serena, disse-me que a única forma de lutar contra isso é através da desobediência civil. Explicou-me o que isso significava para ele e disse-me, olhos nos olhos, que “a única obrigação que tenho é fazer a toda a hora o que considero certo.”

Na verdade, não tenho a coragem nem a irreverência de um homem que, para se libertar do jugo dos que têm por hábito sentarem-se sobre os demais, foi preso e isolou-se num bosque para viver sob um regime de auto-suficiência. No entanto, lá vou tentando libertar-me das cordas que, qual marioneta, me controlam os movimentos.

Falei-lhe também da situação de amigos e conhecidos, que é também a minha. Muitos no desemprego, outros tantos a fazer o que não gostam de forma a ganharem a vida, o desperdício de talento que transborda e é absorvido por outros países. Enfim, a desgraça de um país.

Após um silêncio construtivo, Henry perguntou-me “como podemos tornar o nosso ganha-pão poético?” Pensei durante algum tempo e, quando me preparava para responder, de forma subtil, que isso seria lírico, ele disse “é que, se não for poético, não é a vida que ganhamos, mas morte”.

Que força tinham aquelas palavras. No entanto, sabia que aquilo que sentia naquele momento se evaporaria, em parte, com o tempo, tal como quem sai de uma sessão de cinema fantástica cheio de novas energias que, com o passar das horas, se vão dissipando. Contudo, continuo a fazer um esforço para integrar aquela máxima em algumas das minhas decisões – mesmo que muito ao de leve.

Foi uma conversa de tal modo enriquecedora que, certamente, inspirar-me-á em muitos momentos. Principalmente, nos momentos em que for invadido pela monotonia, onde me lembrarei do seu olhar penetrante, aconselhando-me a agir de forma a “nunca viver uma única hora insignificante”.

Publicado no jornal online ptjornal, em 16/12/2012

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sobre o Natal

− É uma pena que esta luz altruísta nasça nestes dias e morra nos dias seguintes…
− Ainda assim, nasce. Natal é isso mesmo: nascer.
− Mas é uma vida curta. Não resiste à rotina dos dias. É uma espécie de utopia que acontece mas que é interrompida pelo acordar da realidade.
− Pelo menos, é uma oportunidade única de sentirmos a utopia. Se não houvesse Natal, seria uma utopia como todas as outras.
− E acontece porquê? Não somos nós que fazemos essa utopia acontecer? Se se desvanece sempre, é porque o Natal é uma espécie de hino à hipocrisia.
−Não! Para se desvanecer tem que ter nascido. E se nasceu, é porque temos dentro de nós, todos os dias, uma luz altruísta. Simplesmente, o Natal serve como uma espécie de chamamento dessa luz altruísta que vive em cada um de nós. Se não houvesse Natal, não haveria esse chamamento. Seria pior. A hipocrisia está no que vem a seguir.
− Então, os efeitos desse chamamento são demasiado efémeros. É como aquele senhor que vai à missa, que ora a Deus e que sai da igreja flutuando sobre a leveza da comunhão para, instantes depois, voltar a cingir-se aos prazeres da carne. Se calhar, o Natal serve para que, ao sentirmos essa energia altruísta, não nos sintamos tão mal por sermos carne o ano inteiro. É como um analgésico espiritual.
− Se fôssemos, pura e simplesmente, carne, essa luz não existiria. O Natal é a prova que somos seres espirituais. Se não o fôssemos, o Natal não existiria.
− E os presentes? É um sinal da espiritualidade? Ou é um sinal da manipulação, mais uma vez, do espírito pela carne? Como se a carne, ao perder um pouco do seu espaço, gritasse “presente!”.
− Os presentes podem transformar-se nessa manipulação mas não é sempre assim. Dar um presente a alguém poderá significar que o carregas todos os dias no coração, servindo como uma espécie de transmissão da memória. É uma demonstração material do teu afecto. Um verdadeiro presente é como uma fotografia da espiritualidade que une duas pessoas, de modo a que, quem o recebe, possa recordar o outro sempre que vê, ouve ou toca esse presente. E assim, é o afecto que grita “presente!”.
− Seria bom que fôssemos só energia. Sem corpo, sem rosto, sem cor. Apenas uma luz brilhante que não se alimentasse de carne, nem de vegetais, nem sequer de água. Oxalá que à vida se siga um espaço celestial onde cada um de nós é uma luz reluzente, tão indispensável como todas as outras, formando a mais bela das complementaridades. Por aqui, apenas nos resta suportar a competitividade carnal.
− Então, desfrutemos do Natal, pois ele permite que essa luz altruísta despolete da carne, aliviando a dor e sarando muitas das feridas que acumulámos durante o ano.

Numa conversa, que se repete por séculos e, quem sabe, por milénios, duas pessoas, bem sentadas e aquecidas pelo lume de uma grande lareira, experimentam a eternidade. Assim é a luz – eterna!


Publicado no jornal online ptjornal, em 23/12/2012