"Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã." Victor Hugo
terça-feira, 13 de março de 2012
Verbum Die (II)
"Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário" George Orwell
Sintomático
Henrique Gomes, Secretário de Estado incumbido de gerir a pasta da electricidade, demitiu-se. Procurar alterar o estado de graça da EDP, cujos lucros se podem considerar obscenos, valeu-lhe a oposição de uns tubarões nacionais, António Mexia, e internacionais, chineses da Three Gorges. Fica para a história como um homem corajoso que integrou um governo cobarde.
É uma saída de alguém que não se quis sujar, intensificando-se o odor a podre desta coligação governamental PSD/PP.
Álvaro Santos Pereira, o ministro da economia, perdeu uma peça fundamental mas ganhou um lição de integridade e dignidade. Se aprendeu? Veremos, mas duvido.
Verbum Die (I)
Os Vendilhões do Templo
Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.
Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.
E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.
Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.
E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.
Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.
E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.
Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.
E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
José Afonso
25 anos após a morte de um ilustre camarada progressista, eles continuam a comer tudo e a não deixar nada, e continua a fazer falta animar a malta!
Obrigado Zeca, continuas a inspirar e a levantar as cabeças progressistas.
25 de Abril Sempre!!!!
Obrigado Zeca, continuas a inspirar e a levantar as cabeças progressistas.
25 de Abril Sempre!!!!
Prefiro o vermelho, obrigado!
Alarga-se o debate, salvo entre os fundamentalistas de mercado, sobre as incompatibilidades entre a democracia e o sistema financeiro, entre o poder do voto e o poder do dinheiro.
Se aos mercados nos queremos dirigir não temos morada, nem telefone, nem mail, nem fax, nem coisa alguma. Não existem responsáveis pelas desgraças perpetradas pelo funcionamento dos mercados. É intrigante ver os apologistas do neoliberalismo, que por norma nunca dizem que o são e fingem não perceber o que isso é para, hipocritamente, mascararem as suas opções políticas por supostas evidências e inevitabilidades, argumentarem as virtudes do mercado de possibilitar à sociedade civil intervir activamente nos processos da economia. Será que eles acreditam mesmo que o mercado livre, tal como idealizado por Adam Smith, é exequível? Se sim, acreditarão no pai natal? E no super homem?
Como sempre acontece num mercado livre, a concorrência esgota-se num ápice face ao apetite de uns vampiros que vivem entre nós. Pode ser livre durante uns tempos mas depois disso grandes fatias de quotas de mercado já estão a fazer as delícias aos paladares destes vampiros.
Não vejo no Estado o papá que resolve tudo e que põe os vampiros na ordem, até porque muitos deles andam por lá para se certificarem que o poder não seja influenciado por movimentos progressistas. Mas basta ter um pingo de cultura histórica para saber que o excesso de liberalismo económico gera autênticos desequilíbrios e instabilidades sociais, como nos demonstram os séculos XIX (“ordem liberal britânica”), XX ( 1929) e XXI (2008). Não defendo uma plena intervenção estatal que também já demonstrou diversas vezes dar para o torto mas estou inteiramente convicto do papel central que o Estado deve ter na economia. Aliás, quem sabe da importância dos Tratados de Vestefália sabe da importância que a organização dos Estados modernos teve para o progresso da condição humana.
Adam Smith falava da livre concorrência. Utopia? Será, pelo menos, para determinados mercados. Veja a probabilidade de a marca do software do seu computador ser a mesma da de um computador de um cidadão marroquino e perceberá que a livre concorrência é uma realidade bastante limitada.
Não abdico da defesa de um Estado forte porque confio mais numa organização de cariz democrático do que numa organização de cariz mafioso ou lobista. E, se um dia transferirem o poder do Estado para algum lado, não será para os mercados mas para comunidades autónomas, livres das secantes e, por vezes, paralisantes burocracias estatais e dos dentes afiados da escumalha vampiresca.
Se aos mercados nos queremos dirigir não temos morada, nem telefone, nem mail, nem fax, nem coisa alguma. Não existem responsáveis pelas desgraças perpetradas pelo funcionamento dos mercados. É intrigante ver os apologistas do neoliberalismo, que por norma nunca dizem que o são e fingem não perceber o que isso é para, hipocritamente, mascararem as suas opções políticas por supostas evidências e inevitabilidades, argumentarem as virtudes do mercado de possibilitar à sociedade civil intervir activamente nos processos da economia. Será que eles acreditam mesmo que o mercado livre, tal como idealizado por Adam Smith, é exequível? Se sim, acreditarão no pai natal? E no super homem?
Como sempre acontece num mercado livre, a concorrência esgota-se num ápice face ao apetite de uns vampiros que vivem entre nós. Pode ser livre durante uns tempos mas depois disso grandes fatias de quotas de mercado já estão a fazer as delícias aos paladares destes vampiros.
Não vejo no Estado o papá que resolve tudo e que põe os vampiros na ordem, até porque muitos deles andam por lá para se certificarem que o poder não seja influenciado por movimentos progressistas. Mas basta ter um pingo de cultura histórica para saber que o excesso de liberalismo económico gera autênticos desequilíbrios e instabilidades sociais, como nos demonstram os séculos XIX (“ordem liberal britânica”), XX ( 1929) e XXI (2008). Não defendo uma plena intervenção estatal que também já demonstrou diversas vezes dar para o torto mas estou inteiramente convicto do papel central que o Estado deve ter na economia. Aliás, quem sabe da importância dos Tratados de Vestefália sabe da importância que a organização dos Estados modernos teve para o progresso da condição humana.
Adam Smith falava da livre concorrência. Utopia? Será, pelo menos, para determinados mercados. Veja a probabilidade de a marca do software do seu computador ser a mesma da de um computador de um cidadão marroquino e perceberá que a livre concorrência é uma realidade bastante limitada.
Não abdico da defesa de um Estado forte porque confio mais numa organização de cariz democrático do que numa organização de cariz mafioso ou lobista. E, se um dia transferirem o poder do Estado para algum lado, não será para os mercados mas para comunidades autónomas, livres das secantes e, por vezes, paralisantes burocracias estatais e dos dentes afiados da escumalha vampiresca.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Às vezes
Às vezes olhamos e só vemos diferença. Às vezes olhamos e só vemos igualdade. Às vezes, quando olhamos para a diferença, apercebemo-nos do quão importante ela é, porque sem ela a vida seria a preto e branco, monótona e entediante. Às vezes, quando olhamos para a igualdade, sentimo-nos em harmonia com o espaço que nos rodeia, sentimos a força espiritual de um ser gregário. Outras vezes, quando olhamos para a diferença, sentimo-nos esmagados pela imensa injustiça com que nos deparamos e arrefecidos no calor das relações humanas. Outras vezes, quando olhamos para a igualdade, ficamos atordoados porque surpreendidos por uma grande pancada. Afinal, como desenvolveu Carlo M. Cipolla no seu livro “Allegro ma nom troppo”, existem muitas mais pessoas estúpidas do que aquilo que pensamos.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Estupidez ou demagogia?
Pastores e carneiros do pensamento único transportam no bolso uma pequena cassete a que recorrem para depois dissertarem as teorias do tio patinhas.
Nessa cassete não cabem mais de uma dúzia de frases pré-fabricadas, das quais destaco: andámos anos e anos em festa, chegou a altura de pagar a conta; vivemos acima das nossas possibilidades e temos todos de pagar por isso; todos temos que fazer sacrifícios para que o país possa prosperar.
Assim, ricos e pobres, afortunados e azarados, vencedores e perdedores, bandidos e vítimas estiveram anos a fio ora num banquete suculento temperado com pipas e pipas de tintol, ora na pista de dança em perpétuos movimentos de lazer, preguiça e prazer.
Com certeza que, por exemplo, professores da escola pública que ganham miseravelmente para a importância inerente à sua função, estiveram na mesma festa que, por exemplo, Jorge Coelho. Com certeza que, por exemplo, enfermeiros que ganham miseravelmente para a importância inerente à sua função, estiveram na mesma festa que, por exemplo, Oliveira e Costa. Com certeza que, por exemplo, os pequenos empresários estiveram na mesma festa que, por exemplo, os grandes empresários. Perante os prejuízos, somos todos iguais!
Dizem os seguidores do pensamento único que por termos gasto mais do que produzimos temos todos que pagar a dívida… mas como foi contraída essa divida? Não seria perfeitamente natural realizar uma auditoria a essa dívida para perceber as suas origens e composição? Não, se quisermos institucionalizar a corrupção.
Ainda assim sabemos algumas coisas. Sabemos que, relativamente às famílias portuguesas, apenas 40% destas estão endividadas. Sabemos também que desses 40%, 30% correspondem ao crédito à habitação, tipicamente considerado de baixo risco uma vez que o banco tem sempre a garantia do imóvel. E sabemos ainda, através da matemática mais elementar, que apenas 10% dos portugueses estão endividados devido ao crédito ao consumo.
É este o retrato de um povo que se endivida desmesuradamente.
Por fim, uma pequena reflexão sobre o crédito mal parado. É verdade que muita gente se endividou irresponsavelmente. Mas não é menos verdade que os bancos comerciais efectivaram campanhas publicitárias altamente agressivas de estímulo ao crédito, assentes em todas as plataformas possíveis: televisão, rádio, placards publicitários, panfletos… na verdade, só os ermitas se livraram deste apelo continuo à veia consumista.
Nessa cassete não cabem mais de uma dúzia de frases pré-fabricadas, das quais destaco: andámos anos e anos em festa, chegou a altura de pagar a conta; vivemos acima das nossas possibilidades e temos todos de pagar por isso; todos temos que fazer sacrifícios para que o país possa prosperar.
Assim, ricos e pobres, afortunados e azarados, vencedores e perdedores, bandidos e vítimas estiveram anos a fio ora num banquete suculento temperado com pipas e pipas de tintol, ora na pista de dança em perpétuos movimentos de lazer, preguiça e prazer.
Com certeza que, por exemplo, professores da escola pública que ganham miseravelmente para a importância inerente à sua função, estiveram na mesma festa que, por exemplo, Jorge Coelho. Com certeza que, por exemplo, enfermeiros que ganham miseravelmente para a importância inerente à sua função, estiveram na mesma festa que, por exemplo, Oliveira e Costa. Com certeza que, por exemplo, os pequenos empresários estiveram na mesma festa que, por exemplo, os grandes empresários. Perante os prejuízos, somos todos iguais!
Dizem os seguidores do pensamento único que por termos gasto mais do que produzimos temos todos que pagar a dívida… mas como foi contraída essa divida? Não seria perfeitamente natural realizar uma auditoria a essa dívida para perceber as suas origens e composição? Não, se quisermos institucionalizar a corrupção.
Ainda assim sabemos algumas coisas. Sabemos que, relativamente às famílias portuguesas, apenas 40% destas estão endividadas. Sabemos também que desses 40%, 30% correspondem ao crédito à habitação, tipicamente considerado de baixo risco uma vez que o banco tem sempre a garantia do imóvel. E sabemos ainda, através da matemática mais elementar, que apenas 10% dos portugueses estão endividados devido ao crédito ao consumo.
É este o retrato de um povo que se endivida desmesuradamente.
Por fim, uma pequena reflexão sobre o crédito mal parado. É verdade que muita gente se endividou irresponsavelmente. Mas não é menos verdade que os bancos comerciais efectivaram campanhas publicitárias altamente agressivas de estímulo ao crédito, assentes em todas as plataformas possíveis: televisão, rádio, placards publicitários, panfletos… na verdade, só os ermitas se livraram deste apelo continuo à veia consumista.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
